Naquele dia, quando o céu acima da fronteira entre dois mundos se tingiu de um brilho ardente, Elisanor ouviu um chamado. Não uma voz, não um som, mas uma vibração — como se o próprio Coração da Terra tremesse e direcionasse um raio de sua atenção para ele. Parou perto de um velho carvalho, na junção da floresta com as rochas, e sentiu que a hora da Lembrança havia chegado.
Sandra já estava esperando. Mas agora ela não era apenas uma Bruxa, mas também uma Condutora, guardando a Centelha do Fogo Primordial. O reflexo da chama dançava em seus olhos — embora não houvesse fogo ou tocha por perto. Ela segurava uma runa esculpida na madeira — ᚲ — na mão e, quando ele se aproximou, ela a levou ao seu coração:
- Isto não é apenas um sinal. É o que você sempre foi. Uma chama pronta para se tornar uma forma.
E então a Transição começou.
Ele não se lembrava de como o chão havia escorregado sob seus pés. Tudo se tornou leve, abrasador como o calor de um solzinho. Ele viu o céu – e nele, como um espelho, seus próprios olhos brilharam. O reflexo era mais velho do que ele. Ele caiu – e com ele caíram as imagens: ferreiros, deuses, faíscas, lágrimas, sonhos, guerreiros com olhos ardentes, runas, flutuando pelos riachos centenários.
Em algum lugar distante uma voz soou:
- Assuma a forma de Fogo, mas não se transforme em cinzas.
E de repente ele sentiu que podia recusar. Que havia uma escolha: voltar, esconder-se em segurança, esquecer o chamado e permanecer humano. E ele vacilou. Mas naquele momento o fogo em seu peito respondeu com um golpe.
- Não tenho medo. Eu sou Fogo.
Ele acordou em uma caverna. As paredes ao seu redor estavam quentes. A pedra pulsava como carne viva. Sandra estava parada na entrada, um brilho fraco queimando seus ombros, como se o próprio Logi tivesse passado a mão no ar.
Ela não falou, mas tudo já havia sido dito. Ela assentiu, e ele caminhou até a parede. E colocou a palma da mão na pedra. Ele sabia que seu nome agora era Elisanor.
A palavra de Ela'Yi brilhou no ar.
Ele se levantou. Ele se levantou. Ele reconheceu sua natureza. Ele se tornou um Guia.
Sandra fechou o círculo. As runas ganharam vida. O fogo se tornou carne.
Cada runa não é apenas um símbolo, mas um ser, uma forma de vontade primordial. E ᚲ é um dos primeiros a passar pelo Fogo e não desaparecer, mas se tornar um Guia. Em sua forma está uma asa, um clarão, um gancho da criação. Onde aparece, o caminho se ilumina, a escuridão se rompe, o medo se dissipa.
Desde então, Elisanor a carrega consigo. E sempre que a Terra clama por renovação, ele sente o calor sob suas costelas — e sabe: A Chama fala. Não destrua. Crie. Pois você não é apenas uma Centelha. Você é a Chama que fundou a Formação.